Espaço de fala nos Grupos Escoteiros

Vez ou outra levanta-se uma questão nos grupos virtuais que tem como temática o Movimento Escoteiro, que se refere sobre a “voz” do jovem nos grupos. Não raro são os que se posicionam sobre não sentirem que nos grupos onde praticam o escotismo o integrante juvenil tem sua fala ou reivindicações respeitadas, ou se quer ouvidas pelas escotistas.

Um grupo de escoteiros é um espaço extremamente diverso, ali se encontram gerações, algumas saudosistas, outras melancólicas, outras ainda esperançosas, algumas em busca do novo, e tem as que buscam o velho, os que desejam aprender, ensinar, trocar, se ver, se abraçar, crianças, adolescentes, jovens, adultos, velhos e não velhos. Tantos encontros, por óbvio, trazem o conflito que, em sua essência não precisa ser ruim, mas uma oportunidade para se ver e se rever. Toda essa diversidade quer e precisa de voz.

Mas para haver voz com qualidade há de se considerar uma necessidade salutar, a de escutar. Sobre esse tema Rubem Alves nos presenteia com um texto simples e repleto de profundidade e beleza.

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…”

Todo espaço de fala é, em sua essência, uma espaço de escuta, ainda que alguém presente não se pronuncie, ele escuta, ou ao menos ouve, pois “escutar é complicado e sutil”. Desejamos falar, mas temos pouca paciência para a escuta, isso faz com que o espaço de fala seja, muitas vezes um espaço de “cale-se”.

Ainda, em seu texto “escutatória”, Rubem Alves parafraseia Alberto Caiado: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

“Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…”

Talvez tenhamos o desafio de transformar nossos espaços de fala, num local de escuta, onde nossa arrogância possa ceder a necessidade de construir juntos um espaço melhor, onde todos se sintam e efetivamente sejam importantes e respeitados.


Texto: Escotista Fábio Alves Meirelles - Fundador e atual Diretor Presidente do Grupo Escoteiro Guarapiranga; Escotista no Ramo Sênior; participante do Movimento Escoteiro desde 1984; Bacharel em Direito; Especialista no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, ECA e Direitos da Criança e do Adolescente; Palestrante; Gerente financeiro na OSC Fundação Julita/SP.

 

 

 


Comentários

  1. Parabéns texto muito bom neste sentido a todo momento podemos protagonizar o direito de fala..

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  2. Uau, esse chefe Fábio é um arraso, por mais pessoas que pratiquem a arte de ouvir 😍

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